Transplante Hepático: o que é?

 

    Transplantar um órgão significa substituí-lo por outro. Isto acontece quando determinado órgão não consegue realizar a sua função devido a lesão irreversível; se o órgão em causa for vital e não existir alternativa de tratamento que substitua a sua função, o doente morrerá em período mais ou menos curto. Mesmo que esse espaço de tempo possa ser um pouco longo, a qualidade de vida será má ou péssima. Mas, para substituir o órgão doente, é preciso dispor de um órgão são, isto é, é preciso que haja um dador.

    O organismo humano tem uma identidade própria que lhe é dada pelo seu código genético; por isso, cada ser humano é diferente de todos os outros, à excepção de gémeos que provenham do mesmo ovo. Para manter essa integridade face ao mundo que o rodeia, existe um exército pronto a defendê-lo de tudo o que lhe é estranho. Esse “exército” é o sistema imunológico que, através de vários mecanismos, tenta destruir tudo aquilo que entre no organismo e ele não reconheça como seu.

    Se este sistema é fundamental para nos defender das infecções e outras agressões, constitui, por outro lado, o grande obstáculo à transplantação; com efeito, ao reconhecer como estranho o órgão transplantado, irá mobilizar todas as defesas para destrui-lo. É preciso, por isso, procurar evitar esta acção, sem contudo deixar o organismo indefeso face à infecção. É o que se chama evitar a rejeição do órgão transplantado sem, ao mesmo tempo, diminuir tanto as defesas  o que, a acontecer, deixaria o organismo à mercê de qualquer infecção que o conduziria à morte- É neste balançar instável de evitar a rejeição, por um lado, e prevenir ou dominar a infecção, por outro, que reside a essência do sucesso da transplantação.

    Para que a rejeição seja o menos intensa possível, deve transplantar-se um órgão que seja parecido com o órgão a substituir; isto quer dizer que o enxerto (órgão novo) deve ter um tamanho semelhante ao do órgão que vai substituir e deve provir de um dador com o mesmo grupo sanguíneo e o maior numero de afinidades do sistema H.L.A. (sistema que tipifica os principais antigénios dos leucócitos humanos). A isto se chama compatibilidade entre o receptor (doente que vai receber o novo órgão) e o dador (em regra cadáver de que se colhe o enxerto).

    O órgão a transplantar pode colher-se num ser humano vivo (dador vivo) ou num cadáver; o primeiro caso é raro e só pode fazer-se, obviamente, quando o órgão é duplo (caso do rim) ou, não o sendo, basta transplantar parte do órgão (fígado, pâncreas, intestino). A quase totalidade dos transplantes é feita com órgãos colhidos em cadáver. Para que tal seja viável, o órgão a colher tem de ser são e manter a circulação sanguínea normal. Ora tal acontece no caso de morte cerebral – a pessoa está morta devido a lesão irreversível do tronco cerebral mas, com a ajuda de ventilação mecânica e de suporte circulatório, é possível manter por algum tempo a irrigação sanguínea adequada dos órgãos a colher.

    O transplante do fígado apresenta alguns aspectos particulares. Desde logo, tem de remover-se o órgão doente, pois não há espaço no abdómen para colocar o novo fígado; por outro lado, não é prudente deixar o órgão doente já que a probabilidade de poder ser sede dum tumor maligno é muito grande; por fim, é fundamental que o sangue venoso que ia para o fígado doente (sangue provindo do intestino, pâncreas, baço e estômago) vá para o novo fígado, pois este precisa de certas substâncias que vão nesse sangue para manter a sua integridade. Acresce ainda que, não oferecendo resistência à passagem do sangue (o que acontecia no fígado doente), faz desaparecer a pressão elevada do sangue venoso abdominal - a chamada hipertensão portal - e, com isso, o risco de hemorragia digestiva, muitas vezes fatal.

    Esta remoção do fígado doente - chamada hepatectomia total - é, provavelmente, a parte mais difícil e perigosa do transplante hepático; as estruturas vasculares vitais a isolar, as aderências presentes, a hipertensão venosa habitual, a deficiente coagulação e a necessidade de estabelecer, em muitos casos, um circuito externo para trazer o sangue da metade inferior do corpo ao coração, fazem desta intervenção, possivelmente o acto cirúrgico mais formidável de toda a cirurgia.

    Removido o fígado doente, vai então colocar-se no seu lugar o novo fígado que se havia colhido em dador compatível, se perfundira – através dos seus vasos - com uma solução protectora a 4°C - Solução UW - e se acondicionara num recipiente envolvido em gelo. Embora o enxerto se mantenha viável nestas condições 24 ou mais horas, não convém demorar mais de 10 horas entre a colheita e a colocação na circulação do receptor.

    Para colocar o enxerto no receptor fazem-se as ligações (anastomoses) entre os vasos e o canal biliar do doente e os do novo fígado. Os vasos de entrada são a veia porta e a artéria hepática; os vasos de saída são as veias supra-hepáticas. O canal biliar é o colédoco ou o hepático comum.

    Feitas estas ligações - por vezes muito difíceis e exigindo alongamentos ou plastias  -, o órgão começará a funcionar e tudo irá correr pelo melhor; nalguns casos -1 em 10, aproximadamente - o novo fígado não funciona, sem que se saiba bem porquê. Quando tal acontece será necessário, em poucas horas ou dias, encontrar um novo enxerto, remover aquele e colocar este. É o que se chama um retransplante.

    Podem, ainda, ocorrer várias complicações, umas fáceis de dominar, outras mais difíceis. Na grande maioria dos casos, tudo corre bem - a prevenção das infecções é eficaz, as rejeições agudas são facilmente debeláveis, não há complicações vasculares ou biliares - e o transplantado tem alta às três semanas. Seguindo as indicações da equipa médica, tomará os medicamentos adequados, fará os controlos de rotina necessários e verificará que a sua vida volta ao normal.

    Vencida a barreira do 1.º ano, a probabilidade de complicações é mínima podendo, desde então, considerar-se com uma esperança e qualidade de vida semelhantes às das pessoas não sujeitas a transplante hepático.

 

J. Batista Geraldes

U.T.H. - Hospitais da Universidade de Coimbra